quinta-feira, 28 de maio de 2009

Metade




Cada dia que passa, gosto mais desse poema... ele é profundo, e tem muito de mim.

Metade (Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho 
Não me impeça de ver o que anseio; 
Que a morte de tudo em que acredito 
Não me tape os ouvidos e a boca;  
Porque metade de mim é o que eu grito, 
Mas a outra metade é silêncio...  

Que a música que eu ouço ao longe 
Seja linda, ainda que tristeza; 
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada  
Mesmo que distante; 
Porque metade de mim é partida 
Mas a outra metade é saudade...  

Que as palavras que eu falo 
Não sejam ouvidas como prece 
E nem repetidas com fervor, 
Apenas respeitadas 

como a única coisa que resta  
A um homem inundado de sentimentos; 
Porque metade de mim é o que ouço 
Mas a outra metade é o que calo...  

Que essa minha vontade de ir embora 
Se transforme na calma e na paz que eu mereço; 
E que essa tensão que me corrói por dentro 
Seja um dia recompensada; 
Porque metade de mim é o que penso  
Mas a outra metade é um vulcão...  

Que o medo da solidão se afaste 
E que o convívio comigo mesmo 
Se torne ao menos suportável; 
Que o espelho reflita em meu rosto 
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância; 
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, 
A outra metade eu não sei...  

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria  
para me fazer aquietar o espírito 
E que o teu silêncio me fale cada vez mais; 
Porque metade de mim é abrigo 
Mas a outra metade é cansaço...  

Que a arte nos aponte uma resposta 
Mesmo que ela não saiba 
E que ninguém a tente complicar 
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer; 
Porque metade de mim é platéia 
E a outra metade é canção...  

E que a minha loucura seja perdoada  
Porque metade de mim é amor 
E a outra metade... 
também. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário